. Inércia
. Fénix
. Sombras

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(imagem retirada da met)
Todos os dias me cruzo com centenas de pessoas. Vejo e revejo centenas de rostos, milhares de expressões, milhões de emoções por detrás de todas elas. Todos os dias tenho o privilégio de observar e aprender, de experienciar e conhecer… de viver.
Porque a vida não é uma corrida para um objectivo maior, que alguns chamam de felicidade, outros de liberdade… a vida é um caminho, onde podemos colher tudo isso como se de flores se tratassem. E como em qualquer caminho, se não estivermos bem atentos, é possível perdermo-nos. Há tantas coisas que nos distraem. Mas também há milhares de coisas que nos ajudam a retomar esse caminho, que nos fazem recordar de nós mesmos, o que fomos e o que somos, e pensar no que queremos ser. Todos os dias temos a oportunidade de fazer de novo, de fazer melhor. Todos os dias podemos escolher como vai ser mais esse dia.
Quando a inércia se instala, o vento vem e agita tudo à nossa volta.
Já passa da uma. Estou há mais de meia hora a tentar dormir, sem dormir. Estou envolta em escuridão e silêncio, num espaço fechado onde nada entra nem sai. Já passa da uma. E é nesta hora que a solidão mais se sente. Nesta hora em que o silêncio deixa ouvir o pensamento, mas só e apenas meu. É nesta hora que uns começam a sonhar, com quem lhes entranhou a pele, com quem lhes circula nas veias. Com quem lhe entra pelo coração adentro e não mais dele sai. É nesta hora que outros, ainda acordados, se lembram, se despedem em pensamento… se escrevem, se falam, se tocam… se beijam. É nesta hora que outros sentem que não sentem nada disto. Nem longe nem perto. Já passa da uma, e é nesta hora que o silêncio se deixa ouvir a ele mesmo, é nesta hora que eu melhor o ouço… porque eu estou aqui e ninguém se importa.
Apetece-me queimar tudo o que guardo na caixa azul. Apetece-me deitar o fogo a tudo o que me deste, a tudo o que fiz para ti, a tudo onde escrevi o teu nome. Apetece-me tanto, com tanta força. Apetece-me tanto mas não tenho a coragem. Apetece-me tanto como arrancar-te de mim, mas não tenho forças. Sou tão fraca…
Dói-me tanto estar contigo, estar ao pé de ti, partilhar o mesmo espaço, as mesmas conversas, as mesmas pessoas. Dói-me tudo o que vem a seguir a ti. Dói-me viver depois de ti. Dói-me saber que não sinto mais nada além disto. Não sinto nada. Já não sinto nada…
"Back to life"... voltar à vida. Voltar a viver!
Quem sabe como é que isso se faz?
Quem todos os dias renasce das cinzas! Quem todos os dias sara as suas feridas, arruma as mágoas numa gaveta, retira umas quantas alegrias de outra, e continua, segue, caminha. Quem não esquece mas também não vive agarrado a isso. Não olha para trás mais vezes do que as necessárias para saber de onde vem e depois pensar para onde quer ir...
(imagem retirada da net)
Aparecem-me pedaços de ti por todo o lado. Hoje foi uma foto que permanecia na carteira, atrás de não sei quantas coisas. Mandei-a logo para a caixa azul. A caixa que te arruma melhor do que alguma vez conseguirei arrumar-te no meu coração. Neste momento és como uma partícula suspensa num espaço de gravidade zero. Pairas no cerne, pois ainda não sei como nem onde te arrumar. Não sei classificar-te. Não sei se devo pôr-te numa gaveta ou numa prateleira.
Como uma flor que desperta pela manhã com o primeiro raio de sol, que deixa cair a última gota de orvalho, eu vou despertando com o tempo que o tempo demora a passar. O tempo é lento, não se vê. Mas se olhares fixamente, sem desviar o olhar para outras coisas, para outras flores, talvez consigas ter a percepção da sua existência. Se assim não fizeres, a flor vai parecer sempre igual. A não ser que só voltes a olhá-la, pelo anoitecer. Aí muito tempo já terá passado, e nada permanecerá igual. Nem a flor será a mesma, nem os teus olhos verão da mesma forma...
(imagem retirada da net)
Sento-me a ouvir a chuva cair… Cai forte lá fora… firme e segura.
Penso que hoje podia ser um dia para ficar triste, ou revoltar-me, ou até ficar indiferente, passiva, e não colocar nada de mim neste dia. Mas não, não foi isso que eu escolhi. Hoje foi um dia de decisões subtis mas importantes. Hoje decidi caminhar para a minha liberdade.
Aquilo que vou dizer pode não parecer motivo de orgulho ao primeiro olhar, mas foi um passo dos maiores que já dei na minha direcção. Hoje pus um ponto final definitivo a uma (suposta) amizade. Uma relação que há muito não me dava nada de bom, ainda que eu tentasse ver nela algo de bom. Mas tantas vezes se leva com a porta na cara, que um dia é preciso ter a coragem de dizer basta. O meu limite foi o do respeito próprio. Há coisas que se ouvem que, depois de toleradas a primeira vez, perdemos completamente o direito de as repudiar. Permitir que alguém nos desrespeite, e estar consciente disso, é desrespeitarmo-nos ainda mais a nós próprios do que o outro. E eu hoje disse “Basta!”. Ninguém que me trata como lixo merece o meu respeito, porque o respeito, assim como a amizade e a confiança, é algo que se conquista. A gratuitidade deste sentimento não dura além dos primeiros segundos do primeiro contacto entre duas pessoas.
Mas o meu primeiro passo foi bem mais longe que isto. O dia não podia ter ficado apenas pelo fim de algo, mas também pelo início. E como todos os inícios, o que vem a seguir é sempre uma incógnita, uma incerteza, que depende mais de nós do que à primeira vista possa parecer. Que depende demais dos nossos sorrisos para que corra bem. Que depende de sermos cada vez mais nós próprios, para que nenhuma das partes se confunda e se iluda, porque a desilusão é cruel. Espalha-se como veneno nas veias. E dói, que nem queimadura por debaixo da pele.
E é sentada neste recanto, que me imagino caminhando descalça lá fora, com a chuva apaziguando as minhas queimaduras… as minhas cicatrizes…
Não escrevo mais como antes, pois tudo o que era motivo agora é bloqueio. Não escrevo mais como antes, com aquelas músicas de fundo, que emanavam uma frequência certeira para o meu coração, que fazia libertar os meus anjos… agora sinto apenas os meus demónios, surdos.
Eles não pedem música, só o silêncio. Um silêncio tenebroso, sombrio, cerrado. Esse silêncio que eu tanto temia. Esse silêncio que agora está em todo o lado, se calhar com o propósito de que eu o enfrente, de que eu aprenda a suportá-lo, de que eu o aceite como parte de mim. A verdade é que ele faz mesmo parte de mim. E eu tenho medo dele, medo que ele se apodere do meu espaço e do meu tempo, e não deixe mais tempo nem espaço para a melodia que soava antes, de fora para dentro de mim, e do meu cerne para as letras unidas, e para os momentos que delas nasciam...
Porque perdi tudo o que já tinha escrito neste post, e o que sai do coração nunca sai duas vezes igual... Quero só dedicar esta música àquela pessoa que um dia me há-de conhecer por inteiro, mas acima de tudo àqueles que trazem já consigo pedaços de mim...
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